sexta-feira, 13 de novembro de 2009

o imaginário de um conto de fadas

Ela falou sem medo, nem vírgula. Ela falou sem horror, falou porque sentiu, não havia jeito. Nem pensou, só falou: Não diz o que a boca não quer e não procura o que o coração repudia. E ele lá, segurando o copo, mudo. A cerveja já não estava tão gelada, os sorrisos já não estavam tão verdadeiros - minto: não havia nenhum sorriso. Ele não queria chorar, na verdade, mas o dia tinha sido ruim. Deu um gole na cerveja já um pouco quente, bateu as cinzas do cigarro no cinzeiro e olhando nos olhos dela, disse: Você me pediu tantas coisas e eu tentei te dar de alguma forma. Eu não sabia como, mas eu tentava te dar. E eu tentaria tudo de novo, eu tentaria o mundo, eu enfrentaria Deus, o diabo, o caralho a quatro - você sabe, você sabe. Me dói. Me dói tanto agora, você nem imagina. Agora me dói mais porque te doei toda a minha esperança e foi assim que te amei. Te amei sem te dizer o tempo todo, foi o amor silencioso que você pediu de mim. Eu me doei a você e deixei que fizesse tudo. E você fez. Você fez tudo, você sabe, sim sim, você fez tudo. E quando você traiu minha confiança, eu te falei que não era certo, mas eu deixei passar, eu sorri e te beijei na testa. Eu deixei, eu deixei. Mas naquele dia eu cheguei em casa e chorei mas você se quer imagina isso. Porque foi sempre assim. Sempre. Eu te amava, te queria e te sofria - sempre em silêncio ou não. E aquele dia eu, sozinho e em carne viva de tanta dor, chorei.
E a essa altura os olhos dela gritavam alto, gritavam até doer e doía. Queriam chorar, queriam. Como bebês loucos com dor que gritam gritam e a mãe fica lá - aquela pose de mãe, de útero, aquela pose de mulher que tudo pode - ela fica lá desesperada, mas o bebê quer gritar e ela precisa acudir a maldita criança, os olhos querem chorar, a dor quer doer - ela não sabe mais se é mãe, se é mulher, se nasceu só praquilo de ficar acudindo o próprio filho. Mas nem mãe, nem nada. Nessa cena só existiam duas pessoas: ela e ele. E ela bebia a cerveja que estava quente também, queria chorar, sim, queria. E aquela onda melodramática mexicana colorida envolvia os dois que sofriam a dor universal, a dor que corta, a dor marginal, a dor que afeta novos e velhos, burros e sábios: a incomparável e explosiva dor de amor. Que soa incurável, infindável. A dor filha da puta que nos torna imbecis, que nos fode e faz o coração querer sair pela boca de tanto desespero.
Algumas pessoas no bar. Velhos safados bebericando cerveja e assistindo a televisão engordurada em cima do balcão, o nordestino de olhos tristes que saiu do trabalho e resolveu parar ali e comer um PF às nove da noite, uma mulher solteirona com cara de puta que dava em cima de um dos velhos. Este que não tinha cara de safado, pelo contrário, parecia impossível o pau daquele homem subir. Mas a mulher lá, insistente, esfregava o peito no velho, o velho gargalhava, a mulher gargalhava junto e depois tragava o cigarro de filtro branco já com marca de batom. Toda aquela decadência de boteco acontecia e os dois ali, naquela mesa do canto. Só os dois.
Ele, já meio sem palavras, todo doído - resolveu se levantar e deixá-la sozinha no bar. Não havia nada a se fazer. Personalidades diferentes demais. Ela, um estouro. Ele, um suspiro. Ficava aquele contraste, aquelas bebedeiras, as traições de confiança dela, as mentiras, os problemas dele, as dores, os dois, os dois - todo um mundo e os dois. Chegou o temido momento insuportável de um relacionamento. Nada brilhava, nada fazia sorrir. Embora se amassem, embora um desejasse o outro. Mas as músicas não faziam tanto sentido, o sexo agora não era mais como antes, não existiam planos, nem filhos nos planos, nem plantas na casa, nem quem ia cozinhar ou quem ia tirar o lixo do banheiro, nada, nenhum plano. Não. Nessa cena do bar os dois estavam destruídos, o diabo lhes devorou a alma, estavam secos de dor.
Era como se o mito do amor romântico estivesse sendo comido por alguém. E depois de tanto mastigar, roer, depois de engolir tudo.. nada sobrou, obviamente.
E ele tomou coragem e levantou da cadeira. Respirou fundo como se fosse pular numa piscina e falou: E se da minha boca saísse o indesejado, o incompreendido - se da minha boca saíssem mentiras iguais as tantas que você me contou tantas vezes - se da minha boca saísse o errado, o tosco, o horrível, o podre, o sujo... eu não diria agora, olhando nos teus olhos, que tantas vezes enganaram os meus, que te amo com todo o meu coração e toda a minha carne.
E ela, sem aguentar, deixou o cigarro cair no chão, colocou as mãos no rosto e chorou. Não conseguiu fazer mais nada. Não conseguiu pensar, não conseguiu vê-lo partir... nada. Só chorou. E que as lágrimas lhe lavassem a alma imunda. Porque embora quisesse demais, não sabia amar, não entendia porra nenhuma de amor, de como lidar, não sabia. Porra nenhuma. Ela não sabia. Então, chorou. Sozinha no bar, em carne viva de tanta dor. Ela chorou.

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